O movimento LGBT no Brasil

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Em 1964 a Ditadura Militar no Brasil retirou os direitos de toda a população brasileira. Nesse período, negros e mulheres não pararam de lutar contra a opressão. Mas especialmente nesse momento o movimento LGBT no Brasil entra em cena para protestar por direitos. Justamente em um momento onde a democracia está fora de uso na política brasileira.

Antes de qualquer explicação, mais no final do texto abordaremos sobre o movimento LGBTQIAP+, mas por questões de indexação nos motores de busca do Google, escreveremos LGBT. Acredito até mesmo que você chegou até aqui digitando movimento LGBT no Brasil. Então vamos explicar dessa forma por enquanto.

Gay Liberation Day

O principal motivo para o movimento LGBT no Brasil ter iniciado “tão tarde” é por que lá fora ele iniciou tardiamente também. A luta por direitos LGBTs no mundo começa nos Estados Unidos, em 1969. O marco zero do movimento inicia com uma a rebelião de Stonewall, um bar americano que existe até hoje em Nova Iorque. Na época, na cidade de Nova York em estabelecimentos comerciais eram proibidas pessoas do mesmo sexo beijarem-se, dançarem juntas ou vender bebidas alcoólicas para pessoas declaradas homossexuais. E em meio a essas leis, existia o Stonewall: um bar que conseguia sobreviver à custa de muito suborno policial.

Imagem da fachada do bar Stonewall. O marco zero da luta por direitos LGBTIAP+ nos Estados Unidos.
Imagem da fachada do bar Stonewall. O marco zero da luta por direitos LGBTIAP+ nos Estados Unidos.

Um dia, sabe-se lá o motivo, o bar foi invadido pela polícia que prendeu violentamente treze frequentadores e funcionários. Revoltados, os frequentadores invadiram a rua e impediram a saída da polícia que teve que se esconder dentro do bar. O movimento ganhou força e por seis dias a população LGBT invadiu as ruas para protestar. A visibilidade desse evento foi tamanha que um ano depois isso inspirou uma marcha por direitos que ficou conhecida como a primeira parada do orgulho gay. A Gay Liberation Day.

Homens protestando na Gay Liberation Day de 1970. Considerada a primeira parada do Orgulho LGBTQIAP+.
Homens protestando na Gay Liberation Day de 1970. Considerada a primeira parada do Orgulho LGBTQIAP+.

O início do movimento LGBT no Brasil

Nessa mesma época o Brasil passava por uma ditadura militar. A ditadura militar proibia qualquer manifestação política. Isso foi um atraso para diversos movimentos sociais, não somente para o movimento LGBT no Brasil. De Norte a Sul qualquer jornal, peça de teatro, canção ou manifestação de cultura que desse visibilidade à comunidade LGBT era censurada, sendo proibida de chegar essa informação até a população.

Era proibida a exibição de “comportamentos efeminados” ou “trejeitos excessivos” em qualquer jornal, peça de teatro ou revista. Os censores (pessoas que aplicavam a censura) pintavam de preto partes do texto ou até mesmo proibiam as exibições públicas. Tudo para esconder da população a existência da comunidade e do movimento LGBT no Brasil. Por esse motivo que muitas pessoas acreditam que a “homossexualidade” é uma invenção dos tempos modernos. Entenda, não estamos passando pano para o preconceito, apenas explicando como era a vida dessas pessoas que viviam na ignorância. Hoje elas não vivem mais na ignorância, por isso elas não têm mais motivos para tamanho preconceito.

A cura Gay

Durante esse período ser LGBT era visto como uma doença mental no mundo. No Brasil as autoridades sanitárias praticavam o que hoje chamamos de cura gay, mas que serviria para tratar o homossexualismo da pessoa. Dando spoiler do final do texto, hoje a cura gay é proibida de ser realizada e qualquer profissional de saúde mental que for denunciado fazendo cura gay pode (e deve!) perder sua licença.

Prontuário médico de um paciente internado em uma clínica psiquiátrica (Pinel) de Sucupira/SP. Observe os campos disponíveis para identificar coma e convulsões - Fonte: Reprodução/Arquivo Público do Estado de São Paulo
Prontuário médico de um paciente internado em uma clínica psiquiátrica (Pinel) de
Sucupira/SP. Observe os campos disponíveis para identificar coma e convulsões – Fonte: Reprodução/Arquivo Público do Estado de São Paulo

Aqui no Brasil, os hospícios aceitavam internação de pacientes para tratar homossexualidade. Mas como tratar aquilo que não é doença? Essa era a pergunta que as autoridades deveriam ter feito. Mas ao invés disso os pacientes eram internados e submetidos a tratamentos que em níveis mais leves poderiam causar convulsões e em níveis mais altos causavam coma. Somente em 1985 é que o conselho de medicina retirou a homossexualidade da lista de doenças do Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS) e em 1989 a OMS manifesou-se mundialmente.

Momentos importantes do Movimento LGBT no Brasil

A repressão militar fez surgir em 1978, na cidade de São Paulo o SOMOS – movimento de afirmação homossexual e o jornal Lampião da Esquina. Obviamente ambos os movimentos eram ilegais e seus integrantes estavam em constante ameaça, tanto de prisão como às suas próprias vidas. Mesmo assim a dita “imprensa gay” continuava a escrever jornais que procuravam valorizar as conquistas e personalidades LGBT. Por mais simples que seja esse ato é muito importante para enxergar a existência de pessoas LGBTQIAP+ na história. De pessoas importantes na história. O nome disso é representatividade.

O restaurante e pizzaria Ferro's foi palco de outro evento importante para o movimento LGBT no Brasil. Aqui vemos a ativista lésbica Rosely Roth discursando dentro do restaurante. Fonte: Folha de São Paulo.
O restaurante e pizzaria Ferro’s foi palco de outro evento importante para o movimento LGBT no Brasil. Aqui vemos a ativista lésbica Rosely Roth discursando dentro do restaurante. Fonte: Folha de São Paulo.

Diversos outros jornais passaram a existir. Por exemplo, o Chanacomchana que era direcionado à comunidade lésbica brasileira. O jornal foi responsável por um evento que ficou conhecido como o StoneWall brasileiro. No dia 19 de agosto de 1983, integrantes do jornal foram impedidas de vender o jornal pelo dono. O espaço era um famoso ponto de encontro da comunidade LGBTQIAP+ na cidade de São Paulo e na ocasião a polícia foi chamada para expulsar as manifestantes. Felizmente elas resistiram e assim chamaram a atenção da mídia que conseguiu dar visibilidade para o movimento. Hoje a data de 19 de agosto é comemorada no Brasil o dia do Orgulho Lésbico.

O LGBTQIAP+

Hoje esses grupos que atuaram no passado não existem mais. Sua luta foi absorvida pelas mais diversas associações que compõem o “tal do” Movimento LGBT+, que nada mais é do que uma sigla que diz respeito a Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e demais formas de reconhecerem seu corpo e sexualidade.

Ainda hoje a ciência procura respostas sobre a sexualidade das pessoas ser definida por fatores genéticos ou do ambiente onde se vive. Ainda não houve um consenso. Porém querer dar uma explicação sobre por qual motivo alguém é gay é tão sem sentido quanto cobrar uma explicação de por qual motivo alguém é hétero. Gays, héteros, cisgêneros, transgêneros são denominações criadas para identificar os grupos que são diferentes entre si.

A “sopa de letrinhas” da sigla LGBT ainda assusta as pessoas achando que discutir sobre comportamentos LGBT incentiva outras pessoas a se tornarem LGBT. Entendam o que vou dizer agora: quem é, será. E quem não é, não será. Da mesma forma que se identifica com a sexualidade do seu corpo se identifica e quem não, não. Todas as pessoas têm opiniões formadas sobre um assunto que na verdade nem deveria ser discutido.  Perguntar para alguém ou exigir de uma pessoa a resposta de por qual motivo ela é LGBT é tão sem sentido quanto exigir de uma pessoa uma resposta de por qual motivo ela é heterossexual.

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